terça-feira, 18 de agosto de 2015

Um dia elas [as crianças!] vão ensinar-te...


Que o mundo cabe na palma da tua mão.
E que ele, o mundo, é tal e qual como elas o pintam.


Que o amor não cabe dentro de quatro paredes.
E o amor que sentem por ti não cabe dentro do seu pequeno coração.


E quando não acreditares no amor…
Terás 25 crianças que vão amar-te um bocadinho todos os dias!
E a cada dia irão amar-te mais.


Vão ensinar-te que os dias amargos também existem.
Mas em todos eles terás um sorriso, puro e sincero, à tua espera.


Que mesmo fechadas todas as portas e todas as janelas…
Facilmente conseguimos viajar para outros “mundos”.
Pelos livros, pelas fadas, pela vida...


Que não tens 25 filhos.
Mas o amor que colocas naquilo que fazes é relativamente próximo.


Que aquela coisa a que chamas “birra” acaba com amor…
E com um abraço. Um doce e terno abraço!


Que tudo o que fazes é bem feito.
Porque elas confiam e acreditam em ti. Bem mais do que no Pai Natal!


Que as crianças não são todas iguais.
Mas não querem que as trates como “mais uma”.


Que mesmo não as ouvindo,
Elas vão ouvir-te. Todos os dias.
Desde a chegada até à partida vão sempre ouvir-te.


E sabes porquê?
Porque em todos os momentos estarão lá contigo.
Para ti.
Todos os dias.
E nunca te hão-de esquecer!

Porque te amam!



Um Educador de Infância, 
Fábio Gonçalves

sábado, 1 de agosto de 2015

Lembro-me dos anos que foram vividos em dias!


Lembro-me…


Do vosso cheiro. Dos gestos.
Dos vossos medos incertos.
De um espírito aventureiro.
Tão próprio. Tão vosso.
Tão nosso.


Lembro-me da vossa garra.
Da algazarra.
Lembro-me de ser Cigarra,
De convosco tocar guitarra.
Lembro-me de serem formigas
E da vossa disputa sobre quem… distribuía a fruta.


Lembro-me do primeiro desenho.
De um tão hábil empenho.
Do engenho.
E da delícia do vosso sotaque nortenho.
Até me lembro da vossa figura humana.
De vos ter comigo em cada dia da semana.


Lembro-me de vos ter comigo.
Simplesmente, comigo.
Tão meus.
Tão vosso.
Tudo tão nosso.


Lembro-me das primeiras letras esculpidas.
E das vossas almas despidas.
Sem nunca esquecer.
Sem segredos. Sem esconder.  
Sem nunca vos perder.


Lembro-me dos segredos.
Lembro-me das palavras.
Sim, lembro-me das vossas palavras.
Lembro-me do “cada um faz como quiser!”
Lembro-me do “Nós não andamos de mãos dadas”.
Haja o que houver.
Lembro-me do “não é preciso pedir!”
E do “juntos podemos decidir!”


Lembro-me da pedagogia.
Que convosco desconstruí
Toda aquela teoria!
E a cada dia edificamos,
Aquela tão nossa filosofia.
Tão nossa!


Lembro-me de botões.
Na bata e nos casacões!
Nos macacões…
E dos cordões por apertar.
Dos rabos por limpar.
Do ranho por fungar.


Lembro-me de cuidar.
De ajudar e apoiar.
De cooperar.
Passo a passo. Lado a lado.
De vos ver caminhar.
De crescerem em autonomia,
A cada dia.


Lembro-me dos estereótipos.
Do rosa apenas para meninas.
Do azul para rapazes.
E de mudanças eficazes.


Lembro-me da terra.
Dos pés no chão.
De sentir o vosso coração
Mesmo na palma da vossa mão.
Na ponta de cada dedo.
De cada um com o seu enredo.


Lembro-me da “Portuguesa”.
E lembro-me de me arrepiar,
Sempre que o hino resolviam cantar
No meio do vosso brincar.
E dos pais a comentar:
“Ele não para de cantar o hino”.
Destruímos conceções.
Vivemos emoções.
Às Armas, Às Armas,
Entoavam com prazer.


Lembro-me das vossas armas.
E das amarras.
Das lutas numa guerra
Onde um cravo sempre encerra.


Lembro-me de encontrarmos Miró,
Com um livro que se lê.
E de como descobrimos Paul Klee,
Com o que cada um de vós fez.
E refez.
Numa história sem fim.


Lembro-me do Piet, sim,
Que era Mondrian
Mas parecia mandrião.
E de Van Gogh,
Que tinha um “quarto bonito”.
Sem um único “brinquedo no chão”!


Lembro-me de Vivaldi e Mozart.
Lembro-me de Fernando António Pessoa.
E da sua ida à África do Sul.
Ia para Durban, ensinaram-se vocês.


Lembro-me do “Já estão fartos disto!”,
Então “Vamos brincar!”
Lembro-me de vos ver brincar.
Tão fácil.
E das brincadeiras.
Do jogo das cadeiras.
De cada uma das asneiras.


Lembro-me da roupa suja.
Do corpo sujo.
Da tinta.
Lembro-me da tinta nas mesas.
Nas mãos.
No cabelo. Na cara. Nos pés.
E nos pincéis.
Das conversas de cristãos.


Lembro-me da liberdade.
Da criativa.
Da artística.
Da livre liberdade.
Lembro-me da vossa idade.
Da vossa autenticidade.


Lembro-me da loucura.
Daquela tão doce louca ternura.
Dos desafios.
Da desarrumação.
Das paredes cheias de história... 
Mas hoje, parece que foi em vão.
Vazias. Despojadas. 
Paredes. Simples paredes
Condenadas à solidão.
Lembro-me de vocês. 
Lembro-me tão bem de vocês.


Lembro-me de não saber ser Educador.
Lembro-me dos erros.
E lembro-me tão bem dos meus erros.
E de cada aprendizagem.
Da camaradagem.


Lembro-me que, com vocês,
Aprendi a não querer errar.
Não quero.
Mas vou fazê-lo…
Todas as vezes em que me assemelhar
Mais ao Homem e menos à Criança!


Em tempo de Adeus, apenas peço que sejam felizes.
É o meu mais terno desejo.
Que as pessoas nunca fechem as portas que juntos abrimos.
Parece-me exequível!

Mas, não é fácil ver-vos partir...




Estarei sempre por cá.



Hoje não sou um Educador de Infância.
Hoje sou (e serei sempre!) o vosso Educador de Infância,


Fábio Gonçalves