sábado, 18 de abril de 2015

Manifesto contra o colega da porta do lado!



Somos Educadores de Infância, seres perfeitos e imaculados, sem defeitos. Até ao momento em que o colega da porta do lado bate à nossa porta. Normalmente o colega da porta do lado é, um tanto ou quanto, estranho. Literalmente estranho. Muito estranho.





O colega da porta do lado está sempre a criticar o nosso trabalho. Acredito que seja limitado no pensamento. No seu dicionário só deve constar uma palavra: “Defeitos”. Ou, na melhor das hipóteses, talvez sejam duas: “Colocar Defeitos”.


O colega da porta do lado diz-me para experimentar outros caminhos. Mas que caminhos? Na Educação de Infância cada educador escolhe o caminho que considera mais adequado (e nisto o colega da porta do lado até concorda comigo, tenho de admitir). É por isto que escolho o meu caminho. Eu aprendi assim. E eu até tenho mais tempo de serviço.


O colega da porta do lado diz que eu devo ter a porta aberta, em todos os sentidos, literal e figurativo. Mas tenho medo, confesso que tenho medo. Medo que uma criança me fuja da sala, mesmo sabendo que, no máximo, elas poderão chegar até ao quintal! (Na pior da pior das possibilidades, chegam à casa de banho!) É por isso que a fecho, à porta, literal e figurativamente. Bom, mas o colega da porta do lado tem a porta aberta. Eu tenho a minha porta bem fechada, como já disse, não vá o colega da porta do lado querer copiar os meus “coelhinhos fofinhos” que fiz ao serão.


O colega da porta do lado diz que o recreio é quando as crianças quiserem. E eu não concordo, porque tenho uma planificação e um currículo para cumprir. E não concordo porque as crianças só podem ir ao recreio às 10h30m, que é quando toca a campainha. Têm que se habituar, é isto que vai acontecer na escola primária. Temos de as preparar. As crianças precisam de rotinas. E durante aS AAAF têm muito tempo para o recreio!


O colega da porta do lado diz que as rotinas são importantes. Mas eu também defendo isso. Mas ele acha que as crianças também precisam de fugir da rotina. Aí já não concordo. Só porque não.



Às vezes é tão difícil compreender o colega da porta do lado!


      O colega da porta do lado diz que as crianças podem, devem e têm de fazer barulho. Não concordo. E faz-me confusão ter uma sala barulhenta. Faz-me confusão não ter as crianças sentadas a trabalhar duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde (pelo menos!). As crianças têm de andar em sentido!


     O colega da porta do lado não me ajuda quando preciso. Quando lhe perguntei o que devo fazer no dia da mãe, disse-me para perguntar às crianças. Perguntar às crianças? Nem pensar. Elas ainda são tão pequenas. A última vez que fiz essa pergunta a uma criança, há muito tempo, a resposta foi... bem, já não me lembro! 


 O colega da porta do lado está sempre lá, de porta aberta para nos receber. Mas na maioria das vezes não quero entrar, porque não me identifico. A sala está desarrumada. As paredes desorganizadas. Crianças em cima das mesas. Crianças por baixo das mesas. Crianças a comer plasticina como que se de gelado se tratasse (e comem mesmo!). Crianças a pintar, crianças a brincar, crianças a correr, crianças a saltar, e outras tantas a rimar! Que confusão ali vai.


 O colega da porta do lado tem-se esquecido do que é ser educador de infância. Não foi nada disto que aprendi e aprendemos!


 Mas nós também nos esquecemos. E esquecemo-nos na maioria das vezes que o colega da porta do lado está ali para nos ajudar. Para nos abrir os olhos para o mundo. Para nos ensinar a ver. A conhecermo-nos. Para nos levar a pensar, simplesmente pensar. Porque o mundo, não é só o que vemos. E a Educação de Infância não é “apenas isto e tão só isto”.


 O colega da porta do lado tem estado lá, dia após dia. Mas não o ouvimos. Somos incapazes de ouvir a opinião dos outros. De aceitar a critica, a critica que nos vai fazer crescer enquanto profissionais. Não somos capazes de ouvir… principalmente a opinião do colega da porta do lado! Ouçamos o colega da porta do lado!


 Sim, o colega da porta do lado está lá, e sempre esteve. Está lá para raspar a tinta com que nos pintaram os sentidos! Já assim dizia Alberto Caeiro.


… Mas enquanto não entrarmos na porta do lado, não iremos perceber o colega da porta do lado!




Um Educador de Infância
Fábio Gonçalves